(Carlos Drummond de Andrade)
Falar sobre a adoção é sempre uma vivência carregada de muita emoção para mim, por eu estar envolvida com esse tema até a minha própria alma. E é com a linguagem da alma que exponho a presente elaboração.
Este é um trabalho de pesquisa teórico-prático que se iniciou na década de 80, e que ainda continua, sendo que, entre tantos outros aspectos analisados, neste momento serão abordados, de maneira sintética, apenas três tópicos, a saber:
1. Expressões simbólicas
2. Mitos e deuses
3. Cúmplices do destino
No decorrer da minha prática psicoterápica observei que muitos casos atendidos eram de adotados, e uma série de acontecimentos “coincidentes” ao tema circundaram a minha vida profissional, o que me levou a indagar o “porquê” e o “para que” desse tipo específico de paciente, tendo assim iniciada esta jornada de busca.
Faz-se mister esclarecer que, os casos a serem citados se referem à adoção mal sucedida, que denomino “pseudoadoção”, uma adoção parcial frente à qual o adotivo vê a si próprio parcialmente, dicotomizado e cindido a nível psico-emocional. Entretanto, não intento levar ao descrédito a adoção enquanto alternativa mais válida para as crianças sem família ou institucionalizadas, uma vez que são incontáveis os casos de adoções bem sucedidas, e que, talvez por isso, não chegaram ao consultório.
1.
Expressões simbólicas
A explanação do material clínico a seguir não tem por base uma postura interpretativa, mas sim, um olhar simbólico, uma vez que os aspectos sutis a serem citados, são em última instância manifestações do inconsciente, podendo ser considerados como “entrelinhas” do processo de adoção, sendo aqui em específico focalizados os casos de não conhecimento consciente da adoção por parte do adotivo.
Esclareço que, pessoas não adotadas podem também apresentar expressões similares a estas, uma vez que os temas abandono e rejeição são universais, ou seja, são arquétipos.
Parto do princípio de que toda a relação humana é organizada, mediada, tanto por fatores conscientes quanto inconscientes e, portanto, dentro das relações que se estabelecem no processo de adoção também ocorre a interferência de fatores inconscientes, cujo reconhecimento e conscientização promovem a saúde psíquica.
A experiência tem me mostrado que quando o adotivo não sabe conscientemente que o é, sabe porém inconscientemente, e quando não se torna consciente da sua condição, o seu processo de individuação pode ser obstruído desde a infância.
O abandono é uma condição que geralmente antecede a adoção, e sendo o abandono e rejeição arquétipos, o inconsciente sabe da condição da adoção mesmo que a consciência não saiba. O inconsciente vai estar incessantemente fornecendo “avisos” de algo oculto para a consciência, através dos símbolos manifestos em sonhos, fantasias, estórias, desenhos, etc.
O símbolo é uma espécie de instância mediadora entre a incompatibilidade do inconsciente e do consciente, entre o oculto e o revelado; é, portanto, exatamente através dele que ocorre o conhecimento inconsciente da díade abandono-adoção, porém nesses casos sem poder atuar conscientemente.
Caso nº 1: Uma menina, de 8 anos de idade, encaminhada pela escola para o atendimento psicológico, devido a problemas de aprendizagem. Durante a anamnese os pais me relataram que além deles eu era a única pessoa que então passava a saber sobre a adoção, dado que nem o próprio pediatra, parentes e amigos sabiam.
Após a confirmação da esterilidade materna, o casal decidiu adotar uma criança, porém tudo foi planejado para que ninguém soubesse. Mudaram para outra cidade, retornando para a cidade anterior quase dois anos depois, com uma menina que para todos era filha biológica deles.
Na fase do psicodiagnóstico, a mãe me telefonou em desespero contando o sonho que a menina lhe relatara: “eu ontem sonhei que você não podia ter nenê e foi pegar um numa casa que tinha um monte para escolher e você escolheu eu”.
Nesse mesmo dia, na sessão, a criança espontaneamente me contou esse sonho e lhe solicitei que o desenhasse, e na seqüência lhe perguntei o que achava do mesmo, e ela me respondeu: “ah! foi só um sonho, não é de verdade, é só bobagem da minha cabeça”.
A maneira como o consciente da criança adotiva (que não sabe que o é) reage, é semelhante ao de qualquer outra criança, não adotiva, que se depara com situações não informadas acerca de sua pessoa, ocasionando um conflito, um estado de sofrimento psíquico.
Segundo a Psicologia Analítica, as tentativas da consciência de entrar em contato com os complexos são inicialmente do tipo mágico-apotropáico, isto é, tentativas de exorcizá-los, considerando-os como não existentes, chamando-os de “imaginações”, constituindo assim uma forma de assimilação, ou seja, uma forma de negação, pois aquilo que se nega a existência não existe.
Entretanto, com o decorrer do tempo, essas manobras vêm a falir e então insurge um estado de descompensação e deslocamento. A consciência não é mais em condição de negar e lentamente é o complexo que se apropria da consciência, assimilando-a.
Sem o conhecimento consciente, a energia psíquica que se direciona para o inconsciente não consegue se transformar saudavelmente, reaparecendo como sintomas muitas vezes neuróticos, resultantes das informações antagônicas entre o consciente e o inconsciente.
Geralmente, como no caso acima exemplificado, o encaminhamento ao psicólogo é feito devido aos sintomas-distúrbios, e não pela adoção mal sucedida em si.
“Na sua maioria, essas crianças pareciam ter um enorme “buraco” afetivo emocional interno incapaz de ser suprido, estando sempre muito insatisfeitas”. (Zimeo, A. M. Nas entrelinhas da adoção. p.99)
Este “buraco” era simbolizado nos desenhos de diferentes maneiras. Nos testes projetivos como o HTP, era comum a árvore ser desenhada com um buraco no tronco, e as estórias versavam sobre o tema do abandono.
Caso nº 2: Uma menina de 9 anos de idade, encaminhada pela escola por apresentar comportamento depressivo, manifesto pelo isolar-se socialmente. Após fazer o desenho da árvore com um buraco no tronco, ela conta: “esta é uma estória triste, muito triste, porque a mamãe passarinho abandonou o ninho, porque quando foi levar comida para o filhote, o ninho estava vazio e ela foi embora... ela não viu que o ovo com o filhote tinha caído no chão... e uma cobra vai comer ele”.
A árvore de um modo geral, simboliza a evolução, o crescimento, o desenvolvimento de uma pessoa, portanto, o buraco nela inscrito representa simbolicamente um “furo” psíquico nesse desenvolvimento, pela inexistência ou deficiência afetiva da relação parental.
Sobre isso, Edinger diz:
[...]
nos casos de perda de uma figura parental em tenra idade em que não houve uma
substituição adequada, mantém-se uma espécie de furo na psique: uma
importante imagem arquetípica não sofreu personalização, retendo por
conseguinte, um poder primordial e ilimitado que ameaça inundar o ego caso
este dele se aproxime. (Anatomia
da Psique. p. 114)
Essa imagem arquetípica que não sofreu personalização é a mãe arquetípica que não pode ser constelada na mãe ou no pai adotantes, quando estes inconscientemente negam que a criança é adotiva, negando em última instância que é um filho; um filho adotivo.
Caso
nº3: Um menino de
8 anos de idade, encaminhado pela escola por comportamento social agressivo e
distúrbios de aprendizagem. No desenho da figura humana, ao desenhar a si próprio
ele diz: “ esse sou eu e aqui
tem um buraco... é um coração”.
Por
detrás disso, nas “entrelinhas” existem lacunas, “buracos” afetivos não
elaborados concernentes à pessoa de cada um dos pais adotantes, e que são
inconscientemente repassados para a criança através da relação com esta.
Na
fala e na escrita era comum a criança não utilizar o pronome possessivo, ou
então usar vocábulos gerais para as relações familiares, como por exemplo:
“o homem/o pai” ao invés de “meu pai”; “a mulher/a mãe” ao invés
de “minha mãe”; “a mãe da mulher” ao invés de “minha avó”,
etc.
Correspondentemente
na fala dos pais, o distanciamento afetivo era o mesmo quando se referiam à
criança, dizendo por exemplo: “o menino/a menina” ao invés de “meu
filho/minha filha”.
Tanto
a palavra falada quanto a escrita retratam imagens que são configurações
seja de um processo simbólico intrapsíquico, quanto da dinâmica
interpessoal pais-filhos adotivos, que correspondem a atributos constitutivos
da emoção presente, que nos exemplos supracitados,
são frutos da defesa, da recíproca negação inconsciente do vínculo
filial-parental.
Em
crianças acima de 9 anos de idade, se observou freqüente e acentuada
dificuldade em desenhar a família, pois a noção de família não foi
internalizada, por não ter sido de fato vivenciada afetivamente. Muitas
dessas crianças, quando solicitadas, me perguntavam: “Família, como assim
desenhar uma família? Não sei como é!”; e quando chegavam a desenhá-la,
ou a criança não se incluía no desenho, ou se desenhava numa folha a parte,
ou se localizava na mesma folha, porém, distante dos outros membros.
Ou
ainda, quando raramente se incluía, era comum desenhar a si e aos pais com
rostos sem face. Dessa forma, a não identidade familiar também é expressa
simbolicamente nos desenhos através de rostos sem olhos, boca, nariz,
manifestando a ausência, o vazio, do “eu-pai/ eu-mãe/ eu-filho”, o vazio
do eu.
O
adotivo por não saber de suas origens, se torna um ser alienado de si mesmo.
Face
a isso como poderá esse ser alienado de si próprio, processar
a sua individuação se a sua identidade foi negada ou distorcida?
Se
para ocorrer o processo de individuação se faz preliminarmente necessária a
integração dos conteúdos inconscientes á consciência, e se o adotivo não
sabe conscientemente que o é, esse processo já no período da infância tem
um obstáculo intransponível, e o destino de “ser quem é” não se
cumpre.
De
acordo com Jung:
O
termo “individuação” pode [...] indicar somente um processo psicológico
que realiza destinos individuais dados, ou seja, que faz do homem aquele ser
singular que é. (CW.
8/2, § 174)
[...]
A individualidade psicológica existe inconscientemente à priori,
conscientemente ao invés somente na medida na qual subsiste o conhecimento de
um peculiar modo de ser. (CW.
6, § 465)
O
processo de individuação, como conota Jung, é a tomada de consciência da
própria individualidade, o fazer-se indivíduo psicológico. “... Ninguém
pode viver de outra coisa, senão daquilo que se é.” (CW.
14/1, § 304)
2. Mitos
e deuses
As
fronteiras do processo de individuação da pessoa adotiva se expandem na
mitologia, mais precisamente no “mito do herói”. Sabe-se que muitos heróis
foram abandonados e adotados, e a elaboração desta tragédia constelada
concretamente em suas vidas, requer o esforço psíquico para o percurso simbólico
do “nascimento-morte-renascimento”.
A
jornada do herói (ou da individuação), é uma jornada mítica-humana, ou
seja , um percurso arquetípico e portanto, constitutivo de todo e qualquer
ser humano a nível simbólico.
Na
mitologia grega, são inúmeros os personagens míticos que viveram essa
jornada, como por exemplo: Zeus, Apolo, Dionísio, Asclépio, Páris e tantos
outros.
Será
comentado o mito de Dionísio, por nele residirem aspectos simbólicos
capitais similares à jornada heróica da pessoa adotiva, como os temas:
duplo-nascimento; dupla-mãe; exposição; abandono; nostalgia.
Contando
um pouco sobre o mito:
Dionísio, também chamado de o deus nascido
duas vezes, era filho de Zeus, rei dos deuses, e de Sêmele,
princesa de Tebas, porém mortal. A esposa imortal de Zeus, a deusa Hera,
enfurecida com a infidelidade do marido, disfarçou-se em ama-seca e foi ao
encontro de Sêmele, ainda grávida, e a persuadiu a pedir que o marido se
mostrasse em todo o seu esplendor e glória divina. Zeus satisfez a vontade de
Sêmele, a qual não suportando a visão do deus circundado de clarões,
tombou fulminada. Zeus retirou a criança que ela gerava e ordenou que Hermes,
o mensageiro dos deuses, a costurasse em sua (Zeus) coxa. Ao terminar a gestação,
Dionísio nasceu, vivo e perfeito.
Contudo, Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres, e
ordenou aos Titãs, deuses terrenos, que
matassem o menino, fazendo-o em pedaços. Zeus conseguiu resgatar o
coração da criança que ainda batia, colocando-o para cozinhar, junto com
sementes de romã, transformando tudo numa poção mágica, a qual deu de
beber para Perséfone, que acabara de ser raptada por Hades, deus das trevas e
da escuridão e que se tornaria sua esposa. Perséfone engravidou e novamente
deu a luz a Dionísio, o renascido das trevas. Por esse motivo, era chamado de
Dionísio-Iaco, o
que nasceu duas vezes, deus da luz e do êxtase.
Convocado por seu pai, Zeus, para viver na terra junto com os homens e
compartilhar com ele as alegrias e sofrimentos dos mortais, Dionísio foi
atingido pela loucura de Hera, indo perambular pelo mundo ao lado dos sátiros
selvagens, dos loucos e dos animais. Deu à humanidade o vinho e suas bênçãos,
e concedeu ao êxtase da embriaguez, a redenção espiritual a todos que
decidiram abandonar e renunciar à riqueza e ao poder material.
Por fim, seu pai celestial, permitiu-lhe retornar ao Olimpo, onde tomou
seu lugar à direita do rei dos deuses. Nesse período, Dionísio conseguiu
resgatar sua mãe Sêmele e revivê-la. (Síntese
extraída de: Sharman-Burke, J.;
Greene, L. O
Tarô Mitológico. p.
19-20)
A
afabulação do duplo-nascimento, que quer dizer também dupla-gestação,
remete ao esquema clássico da iniciação: nascimento-morte-renascimento.
No
mito, o duplo nascimento de Dionísio configura-se seja quando é gestado na
coxa de Zeus e, depois quando nasce de Perséfone.
Assim
como Dionísio, os adotivos também foram rejeitados, vindo a ter uma segunda
mãe, a adotiva, que simboliza desde aqui, a possibilidade do renascimento a nível
psíquico.
A
dupla-mãe refere-se a uma mãe humana e a outra arquetípica. Sêmele foi sua
mãe mortal, porém, através de Zeus (deus) e de Perséfone (deusa) se
configura a sua mãe arquetípica a qual é projetada em quem cuidou dele. O
mesmo se observa com o adotivo, que tem uma mãe real e uma simbólica, e que
constelará esta última na primeira. Aliás, como qualquer um de nós,
adotivos ou não.
Dionísio
mantém, por um certo tempo, uma conexão negativa com a mãe arquetípica
representada por Hera (deusa que tudo fez para o aniquilar). A deusa Hera
comporta a mãe-bruxa, a mãe má, simbolicamente a face materna da rejeição,
pois ela não aceita a sua existência, que no adotivo ocorre quando a mãe
e/ou o pai adotantes inconscientemente não o aceitam como filho, repetindo-se
novamente o abandono na vida da criança, só que desta vez dentro do próprio
contexto da adoção.
A
conseqüência é trágica, pois assim como Dionísio é tomado pela loucura
engendrada por Hera, o adotivo psiquicamente também se dissocia, quer por não
saber conscientemente de suas origens, quer por não se sentir afetivamente
filho dos pais adotantes. Dionísio fica possuído, tomado pelo aspecto
negativo do arquétipo materno, representado por Hera, sendo que mítica e
psicologicamente o mesmo ocorre com o adotivo quando tomado pelo arquétipo do
abandono-rejeição, o que compõe o complexo materno terrorífico.
Zeus
que sempre interfere a seu favor, pode ser entendido como a consciência de
algo que é seu por direito, ser filho dele e herdar seu trono
individuacional. É como se Zeus simbolizasse o constante chamado de quem Dionísio
realmente é. A conscientização (Zeus)
desses conteúdos cindidos ou dissociados é a alternativa para a reintegração
psíquica do adotivo sendo o ponto inicial para que o ego possa comungar com o
Self, podendo assim o adotivo recompor quem ele de fato é.
Esta
recomposição também ocorre quando Dionísio, qualificado de “touro”
pelos poetas, é dilacerado pelos Titãs e sua carne devorada pelas Bacantes.
Segundo
Brandão:
[...]
despedaçando animais e devorando-os, os devotos de Dionísio integram-se nele
e o recompõem simbolicamente, o que consoante Jung,, configura a conscientização
de conteúdos divididos [...] De fato, os Titãs comportam-se como mestres de
iniciação, no sentido de que matam o neófito, a fim de fazê-lo
“renascer” numa forma superior de existência [...] Dionísio é o deus da
metamorphosis,
quer dizer, o deus da transformação. (Mitologia
grega. vol. I. p. 137 e 135)
Mas
afinal, o que é que morre e renasce no adotivo?
Algo
que ele perde e reencontra, a sua identidade. Esse processo envolve uma busca
para o interior de si mesmo; é a regressão da energia para o inconsciente a
fim de resgatar a mãe arquetípica com quem perdeu o elo, ou melhor, que
não pode ser configurada nos mãe/pai adotantes. Ele busca a si através da mãe.
Assim,
Dionísio representa a criança divina que, em todos nós, vive esta
eterna busca.
E
Hillman diz:
Esta
é a figura clássica do Puer
Aeternus: o componente eternamente jovem de cada psique humana
[...] que está sempre ansiando, e que em última análise está ligado à mãe
arquetípica. Nosso pothos
refere-se a nossa natureza angelical, e nossos anseios e viagens errantes pelo
mar são efeitos, em nossas vidas pessoais, das imagens transpessoais que nos
solicitam, nos impelem e nos forçam a imitar os destinos míticos (Estudos
de psicologia arquetípica. p. 67 e 77)
É
nesse sentido que podemos dizer que somos todos adotados, que em cada um de nós
habita um adotado, cujas carências e temores remetem a um Deus-Pai para
consolo, mas clama pela vingança do abandono, do sentimento de fraqueza. O
conflito está presente e é constitutivo do ser humano. Mas, neste trabalho
importa refletir sobre estes mecanismos no adotado, sobre quem abandono e
sofrimento foram recair.
Dionísio
executa essa busca descendo até o fundo do Hades para de lá arrancar sua mãe
Sêmele e conferir-lhe a imortalidade. Hades pode simbolizar o inconsciente
coletivo nas suas profundezas, e só um mergulho profundo neste vasto e
infinito oceano é que nos fará re-significar a própria vida, pois nele
reside a origem de tudo.
A
busca das origens é um tema universal (arquetípico), um motivo mítico
presente em todos nós. A criança adotiva, como qualquer outra criança, em
algum momento de sua vida, naturalmente, indaga sobre de onde veio, para então
poder se orientar para onde vai.
A
integração do que a criança adotiva traz de suas origens e de seu passado,
ao longo do seu desenvolvimento individual, só é possível se os pais e a
criança aprenderem juntos a compreender esses dados. A restituição do que a
criança viveu permitirá o sentimento de sua continuidade e de sua
identidade. Se trata de um processo que reconstrói o passado em função do
presente, com o olhar voltado para o futuro.
O
adotivo poderá então cumprir o seu destino: o “quem sou” e o “para que
sou”.
3.
Cúmplices do destino
Confesso
ser cúmplice de tudo que foi exposto, através da minha ancestralidade. Meu
sobrenome paterno foi inventado há três gerações passadas. Numa das vezes
que estive na Itália, em 1989,
obtive a confirmação de que meu bisavô paterno tinha vivido em um orfanato
no início de sua infância, sendo adotado por um casal, que assim como ele,
desconhecia sua origem biológica. Por parte materna, minha avó também
italiana, foi criada pela própria mãe como sendo adotada, porque aquela
acreditava que a filha morrera durante o parto, supondo que o marido lhe
trouxera uma outra criança em seu lugar.
Compreendi
então, “porquê” e “para que” por obra do destino, sucederam comigo
tantos encontros com os adotivos. Não acredito em coincidências; por inúmeras
vezes eu conseguia entender o que essas crianças queriam me dizer, mesmo que
nada pronunciassem e principalmente sentir o que sentiam no seu coração.
É
importante esclarecer que, quando falo em destino considero ambos os princípios,
causal (“porquê) e final (“para que”), entretanto ressalto a visão
simbólica desse termo, enquanto uma possibilidade
a porvir, com um sentido (Sinn).
Em
1990 comecei a ministrar palestras e a publicar artigos sobre o tema da adoção,
porém nenhum adotivo chegou ao consultório através dessa divulgação, mas
exatamente como antes eles continuavam vindo sem o conhecimento prévio da
minha experiência profissional com a adoção.
Anos
depois, me mudei de São Paulo para o Paraná, e acreditei que o meu encontro
com os adotivos se romperia, e assim que recomecei o atendimento psicoterápico
procurei um orfanato na nova cidade para prestar um trabalho
psicológico voluntário, mas não localizei nenhum. Após três
meses, a vizinha do consultório, a qual eu não conhecia, pediu que eu
atendesse uma menina órfã, que habitava no orfanato coordenado por ela.
Essas
situações supracitadas são algumas, dentre
tantas outras, que me sucederam.
Como
podem ser entendidas essas sucessivas “coincidências”?
Conforme
Jung, esses são eventos sincronísticos sendo a sincronicidade compreendida
como um “princípio de conexão acausal”. Não é uma causalidade mágica,
mas sim a concomitância entre dois fatos que não são regidos pela
causalidade. Uma conexão que ocorre entre a psique pessoal e o mundo
material, ambos considerados apenas como diferentes formas de energia,
justamente por serem regidos pelo arquétipo.
Na
palavras de Jung:
[...]
não apenas é possível mas até bastante provável que psique e matéria
sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa. Parece-me que os fenômenos
sincronísticos apontam nesta direção, pois mostram que o não psíquico
comporta-se como psíquico, e vice-versa, sem que haja qualquer conexão
causal entre eles. (CW.
8/2, § 418)
Em
Reflexões
Teóricas sobre a Natureza da Psique, Jung compara, de forma sistemática,
o recurso de uma analogia entre a Física Quântica e a psique, ou seja, uma
profunda convergência de perspectivas entre a Física e a Psicologia,
dizendo:
[...]
comparada a outras ciências naturais, a Psicologia se encontra em uma situação
crítica porque lhe
falta uma base colocada ao externo do seu objeto. Não pode
traduzir-se ou reconhecer-se que em si mesma. Quanto mais se alarga o campo de
seus objetivos, mais estes se fazem complexos, e mais lhe falta um ângulo
visual distinto do seu objeto. É quando a complexidade retoma a própria
complexidade do homem empírico, a sua psicologia desemboca inevitavelmente no
mesmo processo psíquico. Não é mais em condições de distinguir-se desse,
mas torna-se o processo idêntico. O efeito é o seguinte: o processo retoma a
consciência e [...] a psicologia é o “fazer-se consciência” do processo
psíquico mas não é
uma explicação de tal processo,
porque cada explicação do fato psíquico não pode ser outra que o próprio
processo vital da psique. [...] (CW.
8/2, § 429)
OBS:
O grifo é meu e proposital.
E
é exatamente nesse ponto que Jung cita a analogia entre a Física Quântica e
a psique. Ele busca recursos de apoio na Física
por acreditar que em certas zonas de contato entre o físico e o psíquico
fosse operativo o princípio de sincronicidade.
Em
particular, o conceito de arquétipo, na sua irrepresentabilidade constitutiva
– que porém está ligada com o seu operar “indireto” sobre a consciência
– é que mais se beneficia, segundo Jung, das vantagens provenientes da
correspondência estabelecida com certos setores de pesquisa da Física.
Assim,
conforme Jung:
[...]Também
a Física apresenta uma situação análoga. Existem, na Física, partículas
que por si não são perceptíveis, capazes porém de efeitos em base à cuja
natureza podemos construir um determinado modelo. A representação arquetípica,
o assim chamado motivo ou mitologema, corresponde a uma construção do gênero
[...] Quando a Psicologia hipotetiza, com base nas suas observações, a existência
de certos fatores psicóides irrepresentáveis, se comporta do mesmo modo que
a Física quando constrói um modelo de átomo.[...] (CW.
8/2, § 417)
A
sincronicidade é quântica pelo fato de existir uma concomitância entre o físico
e o psíquico, ou entre o psíquico e o psíquico. E o fato do indivíduo
perceber a concomitância propicia favorecer o significado.
Assim,
os fatos estão sempre interligados mas depende do “olhar” do observador
para perceber a concomitância e qual o significado (subjetivo) da mesma. Esse
olhar é em última instância simbólico, e a interpretação do símbolo é
pessoal, ou seja, subjetiva.
Para
a Física Quântica o Universo é como um mar de ondas quânticas. A energia
quântica se move por ondas, as quais transportam informações, interligando
tudo no Universo. Daí advém a idéia de macrocosmo e microcosmo
interligados, unificados. Isto porque a energia quântica que é uma energia
primitiva, tem seu deslocamento mais rápido do que a velocidade da luz, onde
o todo e suas partes mantém uma recíproca inter-relação e similaridade.
Poderíamos comparar o Universo (macrocosmo) como sendo um bolo e cada um de nós
(microcosmo) como sendo as fatias, e portanto tudo o que está no bolo (como
por exemplo, farinha, leite, ovos, etc.) está também em cada fatia. Por isso
para compreendermos o Universo não precisamos buscar fora, mas sim dentro de
nós mesmos. Assim como o todo contém as partes, cada parte contém o todo.
A
sincronicidade seria como uma pedra que lançada num lago forma vários círculos,
sendo que tudo o que se encontrar numa mesma faixa, mesmo que distante, tem a
mesma informação.
Dessa
forma, por destino compreende-se algo organizado sincronisticamente com uma
direção.
Quando
falamos em Universo nos referimos ao infinito a nível de espaço e tempo,
onde não há começo e não há fim, só mudança, ou seja, um processo contínuo.
Nesse
sentido, o tempo e o espaço não são absolutos, pois são na realidade uma
construção do pensamento, da consciência.
Jung
tenta ampliar a relatividade espaço-temporal dos eventos, para neles incluir,
como ulterior elemento determinante, o “estado psíquico” , desde que este
seja definido no modo mais amplo possível:
[...]
Nas experiências com o tempo e o espaço, respectivamente, esses dois fatores
reduzem-se mais ou menos a zero, como se o espaço e o tempo dependessem de
condições psíquicas, ou como se existissem por si mesmos e fossem
“produzidos” pela consciência. [...] Em si, o espaço e o tempo consistem
em nada.
São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminadora da consciência
e formam as coordenadas indispensáveis para a descrição do comportamento
dos corpos em movimento. São, portanto,
de origem essencialmente psíquica [...] (CW.
8/3, § 840)
Assim,
mais e além do que uma tentativa
da consciência de explicar o que é espaço e tempo, se poderia atribuir a
estes um caráter simbólico de “pontes” uníssonas entre o antes e o
depois, e entre o lá e o aqui, num todo único e continuum.
Essa interconexão transcende todos os nossos sentidos, e toda e qualquer
explicação se apresenta como um mero constructo teórico redutivo.
Em
outras palavras, o que permanece aqui como uma questão em aberto é o fato de
que tanto a Psicologia Analítica quanto a Física sabem que existe algo que não
é o espaço-tempo; sabem apenas que existe algo além, mas não sabem o que
é, ou seja, que permanece como um constructo teórico, fruto da consciência.
O além do espaço-tempo não é físico, é imensurável.
Mas
o que está além do espaço-tempo está dentro de todas as coisas, dentro de
cada ponto de nós mesmos, dentro de cada ponto do Espaço (Universo).
Portanto, dentro e fora simultaneamente, numa interpenetração de universos.
Esse
além, essa consciência superior, jamais poderá ser atingida em sua
plenitude, mas certamente ser vivenciada através dos encontros com o
“outro” e “consigo mesmo”. Esse além sempre existiu e existirá além
de nós e em cada um de nós, e também por infinitas vezes virá ao nosso
encontro, de maneira natural, para que cumpramos o nosso destino.
E
assim como um poema esse além é inesgotável.
Graças
quero dar ao Divino
labirinto
dos afetos e das causas
pela
diversidade das criaturas
que
formam este singular Universo,
pela
razão que não cessará de sonhar
com
um plano do labirinto,
pelo
amor que nos deixa ver os outros
como
os vê a divindade,
pelo
fulgor do fogo
que
nenhum ser humano pode olhar
sem
um assombro antigo,
pelo
pão e pelo sal,
pelo
mistério da rosa
que
prodiga a cor e que não a vê,
pela
arte da amizade,
pela
linguagem, que pode simular a sabedoria,
pela
manhã que nos depara a ilusão de um princípio,
pelo
valor e a felicidade dos outros,
pelo
fato de que o poema é inesgotável
e
se confunde com a soma das criaturas
e
jamais chegará ao último verso,
pelos
minutos que precedem o sonho,
pela
música, misteriosa forma do tempo.”
(Jorge
Luís Borges)
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